Em Quase Famosos Cameron Crowe não filma apenas uma memória, ele registra o inventário de uma era que não existe mais. O filme é um recorte quase autobiográfico sobre o jornalismo musical antes de virar puramente assessoria de imprensa. É um filme "limpo" demais para o padrão sexo, drogas e rock'n'roll? Talvez. Mas o coração aqui bate no desajuste de William, o garoto de 15 anos que tenta decifrar a fronteira invisível entre ser fã e ser profissional.
O longa brilha nos tipos icônicos: a Stillwater é a síntese da banda em ascensão com ego inflado, enquanto as "Band Aids" flutuam naquele limiar perigoso entre ser musa e ser descartável. Frances McDormand entrega o contraponto necessário como a mãe super zelosa que vê o filho ser tragado pelo mundo, mas é Philip Seymour Hoffman, na pele de Lester Bangs, quem dá a alma ao filme - inclusive sendo profético sobre o fim da mística do Rock.
Pode ser uma visão que suaviza a real sujeira dos anos 70, mas quando Tiny Dancer toca no ônibus, a essa discussão técnica fica de lado. Ali, Crowe prova que música, no fim das contas, é sobre pertencimento. Um tributo nostálgico que, mesmo ignorando as algumas arestas mais feias da indústria, captura a euforia e efervescência de quando a música se mostrava mais livre.
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